Héracles dos gregos, gigante filho de Alcmene, que houvera de
Júpiter disfarçado no seu legítimo esposo,
Anfitrião, que se achava ausente na guerra de Tebas. Ao nascer,
Júpiter, para torná-lo imortal, aproximou-o dos seios de Juno,
quando esta deusa dormia, e fê-lo mamar. A criança sugou com
tal violência, que o leite da deusa continuou a correr depois da
mamada; e as gotas caídas formaram, no céu, a via
láctea e, na terra, a flor de lis. Foi Hércules o mais
célebre dos heróis da mitologia greco-romana, símbolo
do homem em luta com forças da natureza. Desde que nasceu teve de
vencer as perseguições da ciumenta Juno. Assim é que,
apenas com alguns dias de existência, estrangulou, a mãos
desarmadas, duas serpentes que a deusa mandara ao seu berço para o
devorarem. Quando homem, salientou-se pela sua musculatura de aço e
invencível força. Tendo, em acesso de loucura, assassinado sua
mulher Megéra, e os filhos dela havidos, Hércules foi a Delfos
e consultou Apolo sobre o meio de expiar esse crime. Respondendo, o
oráculo aconselhou-o a servir, durante nove anos, ao seu primo
Euristeu, rei lendário de Micenas e de Tirinto. Apresentando-se ao
serviço, o rei, insinuado por Juno, que não cessava de
perseguir os filhos adulterinos de Júpiter, impôs-lhe, com
oculta intenção de eliminá-lo, doze
perigosíssimas tarefas, das quais o herói saiu vitorioso.
Assim é que:
1º No Peloponeso, estrangulou o famoso
leão, terror do vale de Neméa, e, tirando proveito da
façanha, cobriu seus ombros com a pele do animal, tornando-os
invulneráveis;
2º matou a Hidra_de_Lerna, monstro de
sete cabeças, flagelo de Argélida, e as suas flechas,
mergulhadas no sangue da vítima, daí por diante, só
produziam feridas mortais;
3º capturou vivo o javali de
Eurimanto que assolava os arredores. Euristeu ao ver o animal no ombro do
herói, teve tal pavor, que foi se ocultar sob uma cuba de
bronze;
4º alcançou, na carreira, a corça de
pés de bronze;
5º matou, a flechadas, as aves do lago
Estínfale ( Stymphale ), monstros cujas asas, cabeça e bico
eram de ferro, e que, pelo seu gigantesco tamanho, interceptavam, no
vôo, os raios do sol;
6º subjugou o touro de Creta,
terror da cidade, mandado por Netuno contra Minos;
7º castigou
o sanguinário Diómedes, filho de Marte, possuidor de cavalos
que vomitavam fumo e fogo, e aos quais ele dava a comer os estrangeiros que
a tempestade arrolava à costa do seu país. O herói
subjugou-o e o entregou à voracidade dos furiosos animais;
8º guerreou e venceu as amazonas, raptou-lhes a rainha Hipólita,
e apossou-se do cinturão mágico que lhe cingia a
cintura;
9º limpou, em um dia, os currais de Aúgias, que
continham três mil bois e que, havia trinta anos, não se
limpavam;
10º matou o gigante Gerion, monstro de seis corpos e
seis asas, e tomou-lhe os bois que se achavam guardados por um cão de
duas cabeças, e um dragão de sete;
11º colheu os
pomos de ouro do jardim das Hespérides, depois de matar o
dragão de cem cabeças que os guardava. Segundo alguns, o
dragão foi morto por Atlas, a seu pedido, e, durante o trabalho, ele
sustentou o mundo nos ombros; e
12º desceu ao palácio de
Hades, nos infernos, e de lá trouxe, vivo, Cérbero -
célebre cão trifauce.
Depois de todos esses trabalhos,
Hércules entregou-se, espontaneamente, a muitos outros, na defesa dos
oprimidos: matou, no Egito, o tirano Busíris que cruelmente
sacrificava todos os estrangeiros que aportavam aos seus Estados; tendo
encontrado Prometeu acorrentado, por ordem de Júpiter, no cume do
Cáucaso, entregue à voracidade de um abutre que lhe devorava
fígado, libertou-o; estrangulou o gigante Anteu que, em luta,
recuperava a força sempre que conseguia tocar, com os pés, o
solo, etc... Entre as façanhas de Hércules, conta-se ainda
haver ele separado os montes Calpe ( da Espanha ) e Ábila ( da
África ), que antes se achavam unidos, abrindo assim o estreito de
Gibraltar. Depois disso, ele disputou com o terrível Aquelos, a posse
de Dejanira, filha de Eneu, rei da Etólia. Como a princesa lhe desse
preferência, Aquelos, furioso, tranformou-se em serpente, e investiu
contra ele; repelido, tranformou-se em touro, e de novo arremeteu; mas o
herói enfrentou-o, pela segunda vez, quebrou-lhe os chifres, e
desposou Dejanira. Em seguida, tendo de atravessar o rio Eveno, pediu ao
Centauro Nesso que conduzisse Dejanira ao ombro, enquanto ele faria a
travessia a nado. No meio do caminho, tendo Nesso se recordado de uma
injúria que outrora lhe fora dirigida por Hércules, resolveu,
por vingança, raptar-lhe a esposa, passando, com esse intuito, a
galopar rio acima. O herói, tendo percebido as suas
intenções, aguardou que ele alcançasse terra firme, e
então atravessou-lhe o coração com uma das flechas
envenenadas. Nesso tombou, e, ao expirar, deu a Dejanira a sua túnica
manchada do sangue envenenado, convencendo-a de que seria, para ela, um
precioso talismã, com a virtude de restituir-lhe o esposo, se este
viesse, em qualquer tempo, a abandoná-la. Mais tarde, Hércules
apaixonou-se pela sedutora Iole, e se dispunha a desposá-la, quando
recebeu de Dejanira, como presente de núpcias, a túnica
ensangüentada, e, ao vestí-la, o veneno infiltrou-se-lhe no
corpo; louco de dores, ele quis arrancá-la, mas o tecido achava-se de
tal forma aderido às suas carnes, que estas lhe saíam aos
pedaços. Vendo-se perdido, o herói ateou uma fogueira e
lançou-se às chamas. Logo que as línguas de fogo
começaram a serpentear no espaço, ouviu-se o rebumbar do
trovão. Era Júpiter que arrebatava seu filho para o Olimpo,
onde, na doce tranqüilidade, recebeu Hebe em casamento.