O marinheiro que, em estação calmosa, navega despreocupado em poéticas paragens salpicadas de rochedos, ouve, freqüentemente, misturadas com o confuso marulhar das ondas, grasnar de aves marinhas, sibilar de asas e gritos estridentes e zombeteiros, cujo conjunto lhe dá nítida impressão de um concerto de vozes humanas. Imagina então um travesso grupo de raparigas a se divertirem, procurando maldosamente atraí-lo e desviá-lo da sua rota. E se, levado pela curiosidade, ele se dirige imprudentemente para o sítio donde partem as vozes, isto é, para os rochedos à flor d'água onde infinidade de aves mariscam, o seu barco vai, tragicamente, se espatifar de encontro aos escolhos. Daí nasceu a fábula das sereias, em torno da qual a fértil imaginação do poeta teceu maravilhosa lenda. Segundo a concepção corrente, as sereias eram monstros marinhos, de cabeça de mulher e corpo de peixe ou de pássaro, filhas de Aquelos e da musa Caliope, moradoras no promontório da Lucânia. Com a suavidade do seu canto, magnetizavam os navegantes e os atraiam irresistivelmente para os rochedos, onde os faziam prisioneiros e os devoravam. Ulisses, em sua viagem de regresso da guerra de Tróia, querendo ouví-las sem perigo, fez-se amarrar ao mastro do navio, e tapou os ouvidos de seus marinheiros com cera. Vendo-o insensível às suas seduções, elas despeitadas se atiraram ao mar; as pequenas ilhas que elas habitavam, defronte do promontório da Lucânia, foram então denominadas Sirenusas. Segundo uma outra lenda, o oráculo predisse que a vida das sereias duraria apenas enquanto elas, com a sedução da sua voz e a magia dos seus instrumentos, conseguissem deter os navegantes; e que, se alguém viesse a passar, insensível a esses atrativos, elas pereceriam. Em vista disso, as sereias, em permanente vigilância, iam fascinando a todos os que delas se aproximavam, fazendo-os esquecer a pátria, a família e a si mesmos, e ali permanecer até finar-se de fome sede. Estava o seu sítio convertido em um montão de ossadas humanas, quando por ali passaram os argonautas, entre os quais se achava Orfeu; este, para se livrar, tocou a sua lira, e arrancou dela sons de tal doçura, que as sereias emudeceram, atiraram os seus instrumentos ao mar, e se precipitaram nas ondas. Eram três: Partenope, Leocósia e Lígia, nomes gregos que lembram a candura, brancura e harmonia; ou Aglaofone, Telxiope e Pisinoe, denominações que exprimem a doçura da sua voz. Uma delas empunha um lira; outra, duas flautas; e a terceira segura uma gaita campestre ou rolos de música. Os artistas representam-nas sob a figura de uma formosa mulher, de cabelos soltos e cauda de peixe, saindo do mar, com um espelho na mão direita, e um pente na esquerda.